Eu sei que o Senhor quer que eu prometa que nunca mais paro atrás de carro nenhum, então ta prometido.

            Eu juro que não vi que o motorista estava manobrando, Deus. Eu juro.

            Era sábado e eu pedi para ir junto com o pai recolher latas e garrafas.   Ele me colocou no carrinho de mão e eu me diverti muito nas descidas.   Mal tinha começado a ajudar e já me meti numa fria.   A gente estava na rua do circo e tava cheio de lata espalhada pelo chão.   As pessoas são mesmo sem educação, né, Deus?   Em vez de jogarem as latas nos lixos, eles jogam no meio da rua.

            Como eu sou de prestar muita atenção, vi que tinha uma coisa brilhando em baixo de um carro.   Enquanto meu pai recolhia umas latas do outro lado da rua, eu abaixei pra pegar a lata e nem vi que o carro veio pra cima de mim.

            A única coisa que eu me lembro foi do grito do meu pai.   Eu nem sei se eu gritei, Deus.

            Agora eu até sei onde estou e o que foi que aconteceu.   Tinha um motorista no carro, e ele não me viu abaixado e deu marcha ré em cima de mim.   Eu rolei pra um lado pra não me machucar, mas o que eu acho que aconteceu é que o Senhor me puxou com a sua mão enorme, né, Deus?

            Não vi a ambulância que me trouxe para o hospital, nem me lembro de minha mãe ter ficado aqui.

            Só sei que por uns momentos vi uns anjos vestidos com máscara.   Vai ver eram anjos disfarçados de enfermeiros, que o Senhor mandou pra mim.

            Eu estava conversando com o Senhor de olhos fechados e mesmo assim eu pude ver tudo.   Sei que o Senhor me viu, mas eu ver o Senhor foi demais.   Achei que o meu abraço ia ser tão forte que ia quebrar as suas costelas, Deus.   Só que o Senhor me mandou voltar antes mesmo que abraçasse a minha avó e conhecesse meu avô, que devia estar ali perto dela.

            E foi bem nessa hora que eu ouvi meu pai falando com o Senhor.   Nossa eu fiquei tão contente, porque pela primeira vez ele falou com o Senhor. Quer dizer, foi a primeira vez que eu ouvi ele falar bem na minha frente, sem vergonha nenhuma.   Meu pai é meio durão, sabe? Nunca dá o braço a torcer, principalmente pra minha mãe.   Ele pediu que o Senhor não deixasse eu ir embora de jeito nenhum, porque eu era a coisa mais importante da vida dele.   Eu era a única coisa que ele não podia perder.   Os empregos ele até que podia, mas eu, não.   Ele disse que nunca ia ter um filho igualzinho a mim.

            Querido Deus, eu fiquei tão contente! Eu sempre achei que meu pai gostava de mim, mas não esse tanto.

            Logo depois que meu pai falou com o Senhor e que eu tinha acabado de voltar, ouvi o médico que me operou dizer que tinha arrumado um emprego pro meu pai no hospital.   De porteiro, Deus! Nossa, acho que ele vai ficar demais.

            Foi aí que senti uma coisa esquisita.    Abri os olhos bem devagarinho e fiquei olhando para a cara daquele médico que falava com meu pai.   Sabe que eu achei que era o Senhor que estava falando no lugar dele?

            Deus eu acho que o Senhor é preto.

 

(Autora Telma Guimarães Castro Andrade
do livro Querido Deus da Editora Saraiva)

 


 

     

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